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Uma periferia invisível ou Outros Bairros?

data. 2022

artigo Nuno Flores

fotografia: Marcelo Londoño

Após três anos da Iniciativa Outros Bairros (IOB), nomeadamente na realização dos planos de intervenção das zonas de Alto de Bomba, Fernando Pó, Covada de Bruxa e das obras, já realizadas, no Alto de Bomba surgiu claramente uma nova semântica nos discursos políticos e técnicos no que concerne à urbanização.

Os pressupostos conceptuais e de atuação da equipa IOB foram forjados por uma metodologia de escuta do contexto destas zonas que incorpora o desenho das intervenções. E assim, se, por um lado, expressões como modo de vida; voz da população; ou direito à cidade emergiram destes pressupostos a custo de negociações diárias, por outro lado, expressões como Nha casa é nha palácio; Antes da eleição nós eh gente, depois indigente; Antes de Kubaka um toxa k política era só partidos (k nunca um krix sabé). Grinhassim um tita sabe kel ta existi pa nó luta pa nós direitos; conquistaram lugares de media, de fala e de luta que evidenciam a resistência de décadas dos(as) cidadã(o)s destas zonas da periferia do Mindelo.

Sugeriu-se, então, na linha defendida por Ananya Roy, um olhar atento à urbanização como um modo em vez de um modelo, algo que é orgânico e em plena dinâmica coletiva, em oposição a algo pré-estabelecido e pré-definido. Da mesma forma, naquilo que Raquel Rolnik designa de descolonização do território, dá-se a deslocação do investimento público para áreas onde geralmente não acontece, fomentando uma maior distribuição de recursos públicos e potenciando a especificidade do modo de vida do lugar, construindo- -se, enfim, também novas epistemologias sobre a cidade e o território.

Nas antípodas de habituais estratégias públicas centradas apenas em obras de infraestrutura, sem dúvida necessárias dada a debilidade física dos territórios estudados, potenciaram-se relações sociais que marcaram, essas sim, a consciencialização do lugar da periferia e do lugar dos(as) moradores(as) da periferia.

Enfrentaram-se, sobretudo, conflitos entre as já conhecidas e fracassadas estratégias hegemónicas de construção de habitação social em massa como o Casa Para Todos ou, contra as mais atuais correntes científicas, o PLANAH 2021-30 e a estratégia da IOB que, além da reabilitação do espaço público, discute no terreno o próximo passo, avalia- -o e confere sentido ao que já existe.

Perpassar este tempo, é, por exemplo, pensar na cumplicidade vivida pelo grupo de calceteiras Amdjer na Obra. Calcetar cerca de 3000 m2 do bairro que habitam, Alto de Bomba, abriu a dez mulher uma possibilidade de afirmação e de organização pessoal e coletiva. No entanto, é também partilhar as angústias vividas pelo grupo sobretudo em dois momentos marcantes. O primeiro, quando demitidas, de um dia para o outro, de uma obra pública e promovida pelo Estado, a reabilitação da marginal da baia das gatas, por reclamarem ganhar apenas mil escudos por dia em vez de serem pagas ao metro quadrado; e o segundo, quando impossibilita- das pelo próprio empreiteiro de calcetar no empreendimento de habitação social da Portelinha, uma obra também do Estado, apenas por serem mulheres.

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