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Derrube-se o muro

data. 2023

artigo. Nuno Flores

fotografia: Grace Ribeiro

A 05 de Janeiro de 2024 completar-se-ão dois anos que, juntamente com os demais membros da Iniciativa Outros Bairros (IOB), cessaram as minhas funções enquanto responsável pelo escritório técnico montado pelo Ministério das Infraestruturas, Ordenamento do Território e Habitação (MIOTH), no Alto de Bomba. Se durante o período, entre janeiro de 2019 e janeiro de 2022, se pôde realizar uma ação que visava a reabilitação de um lugar, a partir do modo de vida da população local, o Alto de Bomba, no final de 2021 não me cabia outra decisão que não a saída da IOB. Por um lado, porque dos 100 mil contos publicamente anunciados como disponíveis para realizar a IOB, entre 2019 e 2021, apenas foram disponibilizados cerca de 25 mil, por outro lado, porque a tutela não revelava à equipa o montante que seria disponibilizado para a globalidade da ação a partir de 2022, nem quando estaria disponível esse orçamento, justifican- do a decisão por cortes orçamentais relacionados com impactos da pandemia da Covid19.

Se a IOB sempre pautou a reabilitação urbana a partir do modo de vida da população local, foram muitas as ações que aconteceram e simbolizaram a in- tenção de construir um processo que exige compreensão, escuta e, sobretudo, a divisão de um dia a dia que, ora trazia a consciência de que é possível construir sentidos, ora nos confrontava com um fracasso, igualmente, possível. Lembro-me de críticas que me chegaram sobre o fim da ação da equipa que remetiam à necessidade da presença do Estado no Alto de Bomba que, sem o escritório local, desmontado no fim de 2021, deixaria de acontecer. Embora entenda que, de facto, desde aí deixou de haver a presença de uma equipa técnica no local, estou de acordo com pensadores reconhecidos internacionalmente na área do urbanismo, como Raquel Rolnik, por exemplo,

quando sugerem a possibilidade destes locais se tornarem territórios de reserva. No caso do Alto de Bomba, assim é porque este território, como outros em Cabo Verde, está sujeito, quase em permanência, quer a um bloqueio burocrático constante criado pelo poder municipal que o coloca reservado para futuras operações turísticas ou imobiliárias, quer ao retrocesso trazido pela interrupção de uma reabilitação urbna a partir do modo de vida local, estando este processo agora transforma- do pelo MIOTH numa obra que apenas executa desenhos técnicos, certamente já desatualizados, realizados para concurso público feito pela IOB, em 2020.

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