Relacionalidade e Território:
Políticas possíveis para a urbanização em Cabo Verde
data. 2019 - 2023
tese. Nuno Flores
fotografia: Grace Ribeiro
Relacionalidade e Território apresenta a reflexão realizada sobre a inquietude e a perplexidade que a ação/investigação evidencia face ao dualismo inerente à urbanização planetária, ou seja, à produção de realidades urbanísticas, sociais e políticas antípodas que estão presente nos modos de pensar o pensar/ fazer a arquitetura e o urbanismo em contextos precisos, a partir do seu confronto com a desconhecida realidade territorial presente no contexto cabo-verdiano.
A urbanização planetária – porque dependente de atores e sistemas globais que definem os poderes e formas dominantes de regulação -, vive historicamente submetida a colonialidades ocidentais. No entanto, é criadora de um modo de vida e de processos de urbanização capazes de construir uma singular resistência e formas de autodeterminação de quem a habita.
O deslocamento por diferentes geografias, permitiu a esta investigação incorporar experiências de uma vivência muito errante, vivenciadas pessoalmente quase só como observador, em diferentes coletivos, no Brasil; igualmente errante mas já com pleno com- prometimento educativo no Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura, em Cabo Verde (M_EIA); e, mais tarde, também em Cabo Verde, num lugar controverso de decisão técnica e política no Ministério das Infraestruturas, Ordenamento do Território Habitação (MIOTH), desempenhando a coordenação no terreno como promotor público na Iniciativa Outros Bairros (IOB). Sem exceptuar a importância individual de cada uma delas, mas consciente do envolvimento e comprometimento que a dimensão política na IOB (no caso, por dissidência) me exigiu, procurar o relevante da globalidade destas experiências cria um espaço de crítica que fundamenta, no terreno do Urbanismo e da Arquitetura, a imprescindibilidade de uma Educação Artística desobediente, contextual, relacional e dissidente do conhecimento hegemónico que gera a urbanização planetária e produz o prima- do da desigualdade que impede planear a construção do comum.
Pensava-se que a cidade, balizada pela existência da civitas, a sociedade; da polis, o poder; e da urbis, a urbanização, triunfara, quem sabe para sempre, perante os desafios que, no terreno da Arquitetura e do Urbanismo, a Educação Artística podia encontrar no sec. XXI. Mas nesses mesmos terrenos, a metáfora que aludia à perfeição, portanto, que omitia o erro e o desconhecido, não mais foi do que o caminho para a normalização, a naturalização, a regularização e a legitimação de saberes e processos estabelecidos que condicionaram o conhecimento e o saber, logo, também as práticas que se estabeleceram e que excluíam o distinto.
O espaço-tempo que a tese constrói, tornou-se o Chão da relacionalidade, da cumplicidade, da escuta e do afeto onde emerge o conhecimento indisciplinado, que permite o que se apresenta como sendo o segredo para encontrar as novas práticas de atuação que surgem e que assentam na Relacionalidade e no Estar que fundamentam a compreensão do modo de vida, nas suas singularidades. Depois da sinuosidade dos caminhos que percorri nas áreas autoconstruídas do Mindelo e da minha própria ação na IOB, movimentadas pela investigação realizada para a reflexão nesta escrita, identifico os fracassos do capitalismo ocidental, a meu ver, patentes na atual fase do devastador processo colonial que o mundo conheceu e conhece, e caminho ao lado dos que resistem e lutam pelo futuro coletivo da urbanização não planeada e do seu reconhecimento como um modo de urbanização.